Projeto Conceitos e Preconceitos
Dolly e Polly — Importância Médico-Social dos experimentos de clonagem
Prof. Dr. G. L. Santa Rosa
24/11/98
Nós brasileiros, atormentados pelos problemas de desnutrição, endemias e falta de educação sanitária nos perguntamos sobre a licitude do emprego dos escassos recursos, que o Mundo reserva para os problemas da Saúde, na investigação sobre a clonagem de ovelhas. Os trabalhos do Roslin Institute, que resultaram no nascimento da ovelha Dolly, o primeiro mamífero a ser clonado à partir de um adulto, foram desenvolvidos por Ian Wilmut e colaboradores.
Em seus trabalhos iniciais em 1995 produziram dois carneiros, Megan e Morag, injetando em núcleos de óvulos, cromossomas de células cultivadas a partir de blastocistos de ovelha e reimplantando os blastocistos resultantes numa ovelha receptora. A figura abaixo elucida as etapas do experimento inicial.

A clonagem é uma variação da técnica de transplante nuclear, de há mais de 30 anos utilizada com anfíbios (John B Gourdon), e que demonstrou a invariabilidade do DNA durante o desenvolvimento. Deve ser ressaltado que a técnica utiliza o momento no qual a célula resultante da expulsão do segundo glóbulo polar não apresenta um envoltório nuclear. Registre-se que, no mamífero, este envoltório não chega a se formar, o que faz com que se possa dizer que a célula óvulo, no mamífero, seja uma abstração, pois não chega a se constituir, antes da fecundação ou degeneração. Do mesmo modo também inexiste o ovo, pois no resultante da fusão dos gametos não chega a se formar o núcleo único, antes da 1a segmentação.
Um dos cuidados básicos do experimento é escolher células do doador cujo DNA não se esteja duplicando no momento da colheita (para evitar poliploidia) e estimular eletricamente o óvulo para simular a entrada do espermatozoide.
Como fonte de células somáticas, doadoras de material nuclear os pesquisadores tentaram culturas de fibroblastos fetais mantidos em meio nutritivo extremamente carente para reduzir a duplicação nuclear e de células epiteliais obtidas do ubre de ovelhas grávidas. A estratégia da utilização de células das mamas visa a obtenção de clones capazes de produzirem proteínas do leite com características introduzidas por engenharia genética.
Técnicas modernas podem levar as células epiteliais cultivadas a produzirem um determinado DNA e utilizar estas células com o DNA específico como doadoras de material nuclear. Assim eles incorporaram numa ovelha o gen para o fator IX, utilizado no tratamento da hemofilia B e transferiram, junto com o gen do fator IX, um gen da resistência à neomicina. Deste modo, podiam matar, com doses tóxicas de neomicina, as células que não tivessem captado o DNA exógeno. Polly é uma ovelha, nascida no verão de 1997, que secreta essa proteína humana no seu leite. Representa um marco importante na produção industrial de proteínas importantes.
Através de técnicas de clonagem procura-se obter clones de porcos sem a alfa-galactosil-transferase. Os tecidos destes animais, não desencadeando no homem as reações hospedeiro X enxerto, seriam ideais para transplantes renais e cardíacos, e acabariam com as atuais filas de espera por doadores. Outra promessa é a produção rápida de animais com defeitos genéticos que simulem doenças humanas como a fibrose cística , o que dinamizaria os testes de novos medicamentos.
Células produzidas com estas técnicas ainda podem vir a ser utilizadas para tratar doenças humanas como a Doença de Parkinson, o diabetes e a distrofia muscular. Busca-se ainda obter fontes permanentes, estáveis de células humanas embrionárias obtidas de embriões clonados que pudessem ser utilizadas conforme o caso.
Apesar das limitações impostas pela moral, pela ética e pelo senso comum, a clonagem humana, visando, não a obtenção de indivíduos e sim de células, é um campo importante, cujos benefícios para a humanidade são imagináveis, embora incomensuráveis.
Para a Histologia e a Embriologia, estes caminhos são evidentemente promissores, pois estarão a exigir um direcionamento da pesquisa médico-biológica e formação de pesquisadores nos próximos anos, da área molecular para a área da citofisiolgia e da biologia do desenvolvimento. Nós, dos países emergentes, temos que permanecer atentos a estas pesquisas de ponta e vislumbrar oportunidades de aplicar os resultados ao combate de nossas mazelas. Os fatores genéticos que norteiam a resistência às doenças infecto-contagiosas, ou que determinam carências nutricionais específicas, se poderão tornar susceptíveis de controle pela engenharia genética, mas os projetos de pesquisa correspondentes só brotarão em cérebros direcionados às nossas realidades.
A diversidade biológica, existente em nossa biota, poderá ser fonte de segmentos de DNA indispensáveis aos novos avanços e deverá ser defendida pela proteção ambiental e por uma legislação de patentes, que não dê privilégios só às nações mais desenvolvidas. Por outro lado, é evidente que devemos proteger nosso germoplasma, tanto da ingenuidade de nossos indígenas, quanto da ignorância imediatista dos economistas e sociólogos governantes.
Leitura recomendada:
Artigo Cloning For Medicine, de Ian Wilmut no Scientific American, 1298,dezembro de 1998