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Projeto Conceitos e Preconceitos
DE SOUSA, FREDERICO BARBOSA
Departamento de Morfologia, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal da Paraíba
Especial para o Projeto Conceitos e Preconceitos em 21/5/99
Ao ensinar esmalte dental para os alunos, o Professor de Histologia vê-se preocupado em descrever as características histológicas do tecido em cortes transversais e, raras vezes, da superfície dos dentes não irrompidos (através de fotos de microscopia eletrônica de varredura). O ganha pão diário do Cirurgião-Dentista está, entretanto, pesadamente voltado para as caraterísticas do esmalte irrompido, que apresenta características superficiais e internas outras além daquelas do esmalte não irrompido (usado para as descrições histológicas nos livros textos de histologia). Neste contexto, o Professor ensina as características que são esperadas serem encontradas quando de procedimentos de diagnóstico, prevenção e tratamento das doenças que acometem o esmalte, e, dentre estas, a cárie dental é, de longe, a maior importante. Porém, a descrição histológica encontrada nos livros-texto de Histologia Oral não é o que o aluno vai encontrar na totalidade dos esmaltes dentários irrompidos em humanos.
Logo após a irrupção na cavidade oral, o esmalte dental (por estar numa área onde a atrição mecânica intra-oral - (AMI) - é fraca ou nula) é coberto por um biofilme microbiano espesso - espesso é aquele que pode ser detectado a olho nú sem o uso de corantes - cujas bactérias mais internas (em contato com o esmalte e mais distantes da saliva) passam a ter um metabolismo anaeróbico, pela dificuldade do acesso de oxigênio na área interna do biofilme. Este biofilme é formado por uma grande diversidade bacteriana e a transformação para um metabolismo anaeróbico ocorre em decorrência da pouca AMI e não é específico para nenhuma espécie microbiana. No esmalte, a nível ultra-estrutural nos cristalitos individuais da superfície, ocorre dissolução dos cristais com aumento dos espaços intercristalinos - primeiro estágio da lesão cariosa. Essa dissolução continua até o momento em que aquela região do esmalte sofre (com a continuidade do movimento eruptivo) uma AMI maior, removendo o biofilme microbiano e os cristais superficiais mais frouxamente dispostos. Assim, uma camada mais interna de cristais é exposta, onde os espaços intercristalinos são menores. A nível clínico, a etapa inicial de dissolução pode causar uma área hipomineralizada visível ou não antes da AMI ser aumentada. Muitas vezes, a passagem da etapa de pouca AMI para aquela de AMI aumentada, transforma áreas hipomineralizadas visíveis clinicamente em não visíveis clinicamente, dando a falsa idéia de remineralização, quando o ocorre é um polimento da superfície do esmalte. Em outros casos, a etapa inicial de pouca AMI pode causar uma hipomineralização mais intensa que, após o aumento da AMI durante a irrupção do dente, passa a apresentar uma coloração escura com ou sem microcavitação, representando a lesão clássica. Nos dois casos, temos, na verdade biológica, variações de esmalte normal, cuja característica básica é serem conserváveis pela AMI convencional (aquela aplicada pelos próprios tecidos moles da boca, pelos dentes adjacentes e antagônicos e pela escovação convencional).
Áreas de esmalte cuspídeo raramente mostram, clinicamente, áreas de hipomineralização (opacidades), mas em microscopia eletrônica de varredura (MEV), mostram-se como lesões cariosas inativas, como tão bem evidenciado pelos estudos com MEV de esmalte em dentes em diferentes estágios de irrupção feitos pelo Professor Thylstrup e sua equipe na Universidade de Copenhague.
Assim, temos que o esmalte irrompido é bem diferente daquele não irrompido, comumente descrito nos livros texto de Histologia e estes conhecimentos precisam ser passados para os alunos para aproximar o ensino da Histologia Oral com a realidade da promoção da saúde. A Histologia Humana não pode viver para si própria. Sua aplicação primária, e justificativa básica para sua inclusão nos curriculuns de graduação, é servir para uma melhor promoção e manutenção da saúde das pessoas.
Estes conhecimentos alertam para o fato de que não podemos ficar na simplória classificação do esmalte em sadio e cariado. Muitas lesões cariosas têm a mesma carecterística histológica de áreas de esmalte "normal", i.e. hipomineralização cariosa associada a reações dentinárias. Devemos ensinar aos alunos as variações do normal, pois é o que ele vai encontrar na clínica. O futuro pesquisador na área de cariologia ou histologia dental tem que reconhecer que o objetivo final da aplicação de seus achados de pesquisa deve ser os dentes irrompidos dos seres humanos e não aqueles dentes inclusos que normalmente fornecem amostras para as pesquisas laboratoriais. Muitas lesões cariosas são tecidos conserváveis e, assim sendo, são variações do normal dos tecidos dentais duros.
No curso de graduação em Odontologia da Universidade Federal da Paraíba, temos conseguido, através de técnicas simples de secção dental e análise em estereoscópio, mostrar que muitas áreas de esmalte "normal", vistas a olho nú, apresentam áreas hipomineralizadas (pelo processo carioso) inativas ao estereoscópio, associadas a reações dentinárias em termos de esclerose dos túbulos relacionados com os prismas do esmalte afetados. Se o Professor de Histologia não vê importância do ponto de vista cariológico nesta discussão, deve lembrar que grande parte da indústria odontológica está voltada para a Odontologia Cosmética, que emprega resinas restauradoras numa freqüência cada vez maior, e essas resinas são aplicadas com materiais adesivos resinosos hidrofílicos. Estes, por sua vez, têm sua força de adesão à dentina alterada para menos quando a quantidade de fluido nos túbulos dentinários é reduzida em decorrência da esclerose.
As repercussões extremamente importantes das variações do esmalte normal, tanto no campo da Cariologia como no campo da Dentística Restauradora e Estética, apontam para a necessidade de uma mudança no ensino da histologia dos tecidos dentais duros nos cursos de graduação e Pós-Graduação em Odontologia. A urgência dos morfologistas estudarem as aplicações dos seus conhecimentos no dia a dia no profissional da saúde é flagrante, sendo o problema gravado pelo fato de que muitos cursos de Histologia Oral são ministrados por biólogos, médicos ou outros profissionais da saúde que têm pouquíssima intimidade com as patologias que acometem os dentes e seus tratamentos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HOLMEN, L., THYLSTRUP, A. Variations in 'normal' enamel surfaces as visualized in the SEM. In: BELCOURT, A.B., RUCH, J.V. Tooth morphogenesis and differentiation II. Strasbourg: INSERM, v. 125, p. 283-294, 1984.
THYLSTRUP, A., FREDEBO, L. A method for studying surface coatings and the underlying enamel features in the scanning electron microscope. In: FRANK, R.M., LEACH, S.A. Surface and colloid phenomena in the oral cavity: methodological aspects. Proceedings of a workshop on saliva-dental plaque and enamel surface interactions. London: IRL Press, 1982. 408p. p.169-184.
THYLSTRUP, A., BRUUN, C., HOLMEN, L. In vivo caries models - mechanisms for caries initiation and arrestment. Adv. Dent. Res., v.8, p.144-157, 1994.
THYLSTRUP, A. Clinical evidence of the role of pre-eruptive fluoride in caries prevention. J. Dent. Res., v.69, p.742-750, 1990.