SAFRA DA INIQÜIDADE

Villas-Bôas Corrêa

(transcrito do Jornal do Brasil de 3/6/98 , primeiro caderno, pág. 9)

 

 

Qualquer que seja o desfecho da greve dos professores universitários federais, o governo está colhendo o que, durante quatro anos, plantou e cultivou na roça da iniqüidade. 

Para puxar o fio da meada, enroscado no novelo de 1995, é preciso examinar a política salarial imposta aos servidores públicos, suas justificativas fofas como pança de obeso e seguir a rota de injustiças que atirou um milhão de funcionários ativos e aposentados e suas famílias no desespero da progressiva e implacável redução do poder aquisitivo. Na descida, degrau por degrau, da escala social até o rés do chão da miséria dissimulada pela vergonha da classe média condenada a baixar seu padrão de vida aos níveis da indigência. É por aí que passa o movimento grevista, que se espicha por dois meses, deixando pelo caminho vítimas sem culpa, que curtem a indignação da injustiça. 

Desde que assumiu a decisão de não conceder aumento salarial aos seus servidores, o governo vem entoando desculpas e regando a explosão que fatalmente ocorreria, mais dia menos dia. 

Espalhou privilégios para minorias afortunadas em nome das distorções salariais do serviço público falido, sucateado em décadas de empreguismo e politicagem. Empilhou desculpas no falsete do patuá tecnocrata. No apagar da lamparina do governo do presidente Itamar Franco, os servidores foram agraciados com aumentos acima da inflação. E algumas categorias, mimoseadas com reajustes da prodigalidade. 

Para corrigir o galho entortado o governo vergou de vez a árvore. Errou em dobro. Impôs o congelamento salarial da totalidade. E, aqui e acolá, pinçou os que mereceram tratamento especial. Um milhão e cem mil sem aumento desde janeiro de 1955; a 50 mil foram servidas fatias do bolo da exceção.

Para marcar a discriminação com as tintas da política de dois pesos e duas caras, patrocinou a derrubada da velha conquista da paridade entre servidores civis e militares. E, no embalo, criou a Gratificação de Condição Especial de Trabalho e paparicou os 550 mil fardados com aumento de 18%, esguicho da cascata que continuará a despejar dádivas -- a próxima, em fevereiro. 

Ora, o governo finge que não sabe que está misturando coisas diferentes. Corrigir distorções, barrar a evasão de técnicos e especialistas acompanhando as flutuações do mercado, atender a pleitos justos de categorias diferenciadas deve ser o complemento de política que preserve o poder de compra dos salários, repondo o desgaste dos resíduos inflacionários. 

Pois a inflação foi contida mas não acabou. E não há justificativa para a insensibilidade social de quatro anos sem reajuste. Os salários dos servidores civis encolheram 48% segundo os índices oficiais que medem a inflação. A corrosão acumulada apertou o nó que não pode ser desatado de uma vez. Pequenos reajustes anuais teriam sido absorvidos sem maiores abalos: de todas as categorias que recebem salário, os servidores públicos civis são os únicos torturados por quatro anos de jejum.

 

Propõe o ministro da Educação, Paulo Renato, aumento entre 22% e 55% para professores com titulação e bolsas para os iniciantes. Os professores batem pé na exigência de 48% para todos, inclusive aposentados. 

E a conversa não fecha, azedada pelo radicalismo de período eleitoral. O diabo é que todos têm sua cota de razão. O ministro Paulo Renato trava com o sistema universitário federal áspero diálogo de cobranças de desperdícios notórios deste saco sem fundo, ralo por onde escorrem 70% das verbas públicas da Educação. No outro microfone, os professores universitários expõem os andrajos da ralé dos servidores públicos condenados ao extermínio. 

No meio do sanduíche, espremidos entre o pão e o recheio azedo, 420 mil estudantes universitários vadiam sem aulas há dois meses. Recolhem o lixo da malandragem compulsória, na fase decisiva da escolha do rumo da vida, a lição da irresponsabilidade, da falta de seriedade com a formação profissional, da bagunça do ensino na universidade do deboche.