Devolvendo o botão lulalala
Hélio
Fernandes
Tribuna da Imprensa 19/2 /2003
Carta
aberta ao presidente Lula
Depois
de 8 anos de FHC, funcionários não querem sofrer mais
Senhor Presidente
Triste
e decepcionado, devolvo-lhe, em anexo, o botão que usei na lapela desde
a primeira vez que o senhor se candidatou à Presidência do Brasil. Faço isto
por constatar que o idealismo do candidato e do PT não resistem ao
poder alcançado. Já se constata no ar o odor do poder econômico frio, impessoal
e prioritário, cuja força balança as prometidas metas de justiça social.
Sinto isto na pele. Tenho 71 anos e sou Auditor Fiscal do INSS
aposentado. Sofri durante oito anos o massacre do governo passado sobre a minha
tranqüilidade familiar e financeira, ao fim desse tempo havia perdido quase
75% do poder aquisitivo dos meus vencimentos e passado pelo ininterrupto
pavor de novas medidas jogando-me na velhice empobrecida. ...ENTRETANTO,
após sua vitória, decidi que seria minha obrigação moral aceitar
algum sacrifício pessoal em benefício do bem-estar geral e disse a todos
os colegas - aposentados e na ativa - que tínhamos de dar a nossa cota,
apesar do massacre da era FH. Porém,
meu espírito cívico, assim como o dos meus colegas funcionários públicos,
está sendo substituído por revolta e até mesmo pela raiva, pois o seu
governo procura convencer a opinião pública que o funcionalismo público é
o câncer mortal que se não for extirpado matará o Brasil. Mais uma vez, viramos
"boi de piranha" político. Mais uma vez, somos o "bode
expiatório"
usado para afastar a atenção do povo do verdadeiro câncer mortal que é composto
da imobilidade oficial quanto à prioridade pelas reformas tributária,
judicial, política, agrária, parlamentar, econômica, financeira etc.,
etc.
Vejamos algumas das realidades desabonadoras em torno da
"prioridade" pela reforma da Previdência, a toque de caixa:
1) não
há legislação no Brasil para garantir que os sistemas privados não fujam
com o dinheiro que foi depositado com sacrifícios por alguém durante anos;
2)
é impossível para o funcionário público, a menos de
10 anos da aposentadoria,
conseguir contribuir para um sistema privado e obter um ganho decente;
3)
é
impossível para o indivíduo entrando na meia idade ser aceito no sistema
de previdência privada, sendo ABSOLUTAMENTE IMPOSSÍVEL para um idoso JÁ
APOSENTADO complementar renda por um sistema privado;
4)
) apesar dos editoriais da imprensa reconhecerem a
carência de Fundo de Garantia para o funcionário público, declaram de
forma hipócrita que isto é um problema pessoal e não é maior que o interesse
da coletividade
(funcionário público não é coletividade através do seu número elevado?
Onde está
o social?).
5)
Contrário
ao propalado, os aposentados do serviço público PAGAM SIM tributação
federal. Eu, por exemplo, apesar da lei (genérica) dizer que estou
isento do Imposto de Renda por ter 71 anos, sou descontado uma fábula mensalmente,
além de incontáveis outros descontos no meu contracheque;
6)
enquanto o
país é motivado pelo governo para fazer a reforma da Previdência
com base no massacre do funcionário público, nada ou quase nada se
ouve sobre providências para obrigar as grandes empresas e outros tipos de
empregadores a recolherem o que devem ao INSS (em outras palavras, aos aposentados). Nada se ouve sobre programas prioritários
contra a imensa corrupção, juntamente com os grandes sonegadores, os reais
responsáveis pelo déficit da Previdência. Tampouco, há iniciativa no sentido de
dar melhores condições de trabalho e de futuro profissional aos funcionários;
7)
enquanto o
governo atual declara que os militares e os juízes são intocáveis
(como se não constituíssem também fatores do déficit financeiro federal,
estadual e municipal) por terem suas posições respaldadas por sistema
constitucionalmente democrático (disse o novo ministro da Previdência),
propositadamente omite-se que os direitos dos funcionários também
foram obtidos por meios constitucionalmente democráticos;
8)
no processo
massacrante - e hipócrita - desconsidera-se que o funcionário aposentado
não raramente - mesmo - carrega familiares nas costas, diante do
crescente desemprego e da inflação real (omitida nos números
oficiais). Eu, por exemplo, passo mais da metade dos meus vencimentos
para os três filhos adultos, para que possam dar atenção familiar,
educacional, etc. aos seus filhos. No campo da saúde, gasto muito com
medicações caras (e encarecendo), coisa quase inevitável na minha idade;
9)
é "golpe baixo" pretender estabelecer os
parâmetros da reforma da Previdência através de consultas à população, pois
o governo sabe que
durante anos a opinião pública foi doutrinada contra a classe - que sem dúvida
é criticável em muitos aspectos - como se cada um fosse um vagabundo ocioso,
nomeado por pistolão. O governo
SABE que esta verdade negativa é minoritária mas ela é generalizada,
criando-se assim, o fator psicológico máximo que resultou em uma
população antagônica, inclusive por inveja inconsciente, visto que com o desemprego
e a insegurança profissional geral em alta, predomina a síndrome de
que "se eu não tenho, não quero que o outro tenha". Portanto, consultar a opinião pública é um
jogo de cartas marcadas, sabendo-se que ela será majoritariamente contra o
funcionário público (aliás, uma enquete recente resultou em mais de 85%
das pessoas respondendo que os funcionários devem perder seus direitos
adquiridos).
10) O
ministro da Previdência declarou-se a favor de mudar o sistema de reajuste
dos aposentados, sabendo que, com a inflação real, em pouco tempo terá mais uma legião de velhos pobres e mais doentes, sem que, com isto, haja
benefício significativo para os cofres públicos;
11) caso
o próprio governo recolhesse o que deve à Previdência, melhorasse as
condições para que houvesse mais carteiras assinadas e contribuindo, reduzisse
o desemprego, aumentasse o poder de fiscalização dos auditores (que
atuam sem um milésimo da organização e do poder legal dos seus colegas da
Fazenda), racionalizasse o custo operacional do INSS, evitasse que o Tesouro
sugasse - por vasos comunicantes - as verbas do sistema e cobrasse os
milhares de aluguéis inadimplentes dos imóveis da Previdência, jorraria dinheiro
na Previdência, mas... é mais fácil e conveniente usar o funcionário
público como câncer responsável, como bode expiatório e como boi de
piranha. Senhor Presidente, eu e muitos brasileiros –
funcionários públicos ou não - jamais esperávamos o que começa a ocorrer,
além do neomassacre do funcionalismo público: a traição dos princípios que
levaram o PT e o senhor ao comando do país; a repetição - agravada - da
política (disfarçada) da era FH; a gradual anexação do país ao poder dos
banqueiros nacionais e internacionais, dos grandes empresários e políticos
insensíveis ao povo. Ressalvo:
não sou um nacionalista xiita. Sou mais um brasileiro querendo apenas
que a bandeira brasileira que vinha sendo desbotada voltasse a ter suas
cores revitalizadas e autenticadas.
Estou com raiva, estou decepcionado. Eu e um
número crescente de pessoas, funcionários públicos ou não. Sinto-me palhaço,
sinto-me ludibriado, sinto revolta. Não sinto brasilidade. FH traiu seus ideais e irá para a história
pela auto-traição ideológica e ao patrimônio nacional. Caso o seu governo faça o
mesmo, deva se lembrar que a raiva de ex-partidários é muito pior do que a
raiva dos que nunca foram aliados e solidários.
Gostaria de um dia usar novamente outro
botão "Lula PT" na lapela e poder dizer que a minha revolta expressa nesta
carta não teve fundamento. Mas, hoje, isto não é possível, não apenas por causa da
demagogia do "NEOMASSACRE"
do funcionalismo como também devido ao gradual retorno da socialmente
nefasta política econômica que DEU o Brasil de presente, durante os
últimos 8 anos.
Cuidado, senhor Presidente, decepcionar um
povo que o levou ao poder com amor, esperança e confiança pode ser mais perigoso
que mil FMIs, incontáveis inimigos nacionais e internacionais e doenças
terminais. Espero que este meu velho botão o leve a
pensar melhor antes de transformar o seu governo em mais um insensível
instrumento de poder para destrinçar as carcaças de milhares desprovidos de
poder próprio.
Respeitosamente,
EMMANUEL NERY
Rua Gustavo
Sampaio, 738, apt. 410 - Leme –
Rio de Janeiro-RJ.
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Identidade: 1601050-6 (IFP)
Tel.: 021 - 11-542-8835
PS - A
carta acima, muito bem escrita, respeitosa, sofrida,e meditada, é assinada
por um funcionário, mas representa milhares, dezenas de milhares de vozes.
Não é advertência e sim alerta. Curiosamente, o governo desmorona enquanto
o presidente se fortalece.
PS 2 - Também não foi por acaso que o ÚNICO ÓRGÃO DE COMUNICAÇÃO que recebeu diretamente cópia da carta aberta foi esta Tribuna da Imprensa, e este repórter. Concordo com cada item, cada colocação, cada parágrafo, cada linha, cada palavra.
PS
3 - Neste País, é preciso explicar: não sou funcionário, nunca fui, mas
tenho a certeza de que o funcionalismo (não confundir com nepotismo ou
paternalismo) é o esteio do Estado. Portanto, não reivindico em causa própria.