Educação à Distância: fatores adversos
Prof. Dr. G. L. Santa Rosa
mailto:gilberto@multipolo.com.br?subject=Educação à Distância #2
Novembro, 1999
Os fatores adversos, que se apresentam à implantação da Educação à distancia entre nós, são de natureza bastante diversificada.
Os fatores econômicos se traduzem não apenas na insuficiência dos recursos estatais. A cultura de nossos economistas não lhes permite ver a Educação como investimento a médio e longo prazo. Curiosamente se prestam a propor empréstimos à fundo perdido para a escola privada, mas desconsideram a proposta de investir na escola pública. Os fundos aplicados no sistema público de ensino são vistos como custeio a ser minimizado em benefício da saúde das contas públicas. Por outro lado, nos países saxônicos há um sentido de gratidão pela escola que se traduz sob a forma de doações dos profissionais bem sucedidos às escolas responsáveis pela sua formação. Aqui a escola é um negócio. Alega-se o interesse público para pleitear benesses governamentais e a livre iniciativa para impedir que se lhes reduzam os lucros. Em tal cenário não é simples a construção de um cenário nacional que permita a implantação de um megaprojeto de Educação à Distância.
Outro óbice é a precariedade de nossa rede de telecomunicações. Nossa rede de fibra óptica é incipiente e a rede de telefonia tradicional é obsoleta e pouco disseminada. Dentro de nossas Universidades, é dificílima a obtenção de uma comunicação telefônica entre dois departamentos contíguos. Uma decisão tomada no gabinete dos reitores dificilmente chegará a todos os departamentos em menos de quinze dias. A estruturação de anéis de fibra óptica nas nossas universidades está chegando aos gabinetes e laboratórios de pesquisa, mas se mantém muito distante das salas de aula ou de estudo do alunado.
Nossos centros de informática são historicamente voltados para as atividades gerenciais ou bancos de dados. A computação gráfica está restrita a problemas específicos de geoprocessamento ou a atividades artísticas nos centros respectivos. Carecemos de uma cultura de multimídia. Muitos professores nossos confundem multimídia com o setor de meios audiovisuais da escola tradicional. A programação multimídia acha-se ausente em muitos currículos de graduação em informática, tradicionalmente baseados no processamento de dados. Nossos analistas de sistemas buscam a especialização em multimídia nos escassos cursos universitários disponíveis ou procuram treinamento em softwares comerciais, intuitivos, que dispensem programação, ainda que sacrificando a flexibilidade. Podemos contar nos dedos os analistas que sabem programar dez linhas de programação em Lingo, ou mesmo em Java.
Nossas montadoras de microcomputadores, que se intitulam fabricantes, não oferecem computadores adequados às atividades de multimídia. Os profissionais de multimídia montam seus próprios micros, com as placas de vídeo e som adequadas, com a memória RAM e o cache suficiente, com os gravadores de CD-ROM, DVD de última geração, por um preço muitas vezes inferior ao que paga o governo por micros de marca numa concorrência para aquisição de milhares de unidades.
A cultura multimídia está cursando o mesmo caminho que o microprojetor seguiu. Só chega à escola depois que se ache vulgarizada nos escritórios das empresas. Hoje ainda são poucas as empresas que apresentam em CD-ROM projetos à diretoria. Algumas já usam apresentações em multimídia singelas, armazenadas em notebooks e apresentadas em datashow. Só quando a prática se disseminar entre as empresas irá extravasar para as universidades. Recentemente um congresso de Engenharia de Produção presenteou seus participantes com os anais em CD-ROM. Foi uma surpresa para os participantes o que hoje é corriqueiro no exterior. Empresas multinacionais começam a fazer multimídias em CD-ROM para treinamento, para estabelecimento de normas técnicas e disseminação da filosofia empresarial. Acredito que isso, que as universidades do exterior ensinaram às multinacionais, possa ser então assimilado por aqueles que dirigem a educação brasileira.
Nossos professores ainda tem medo do microcomputador. Ainda o vêem como um videogame que desvia o alunado dos trabalhos escolares. Temem que o trabalho escolar vire lazer. Temem perder o controle sobre o processo educativo, receiam que o aluno venha a estudar o que lhe interesse e, sobretudo assusta-lhes a idéia de que avaliadores externos venham a quantificar o desempenho de seus educandos.
Não temos o microcomputador ou a televisão a serviço do professor, na sala de aula. Precisamos muito da educação na presença com auxílio de meios interativos. Gostaríamos de ter maior número de programas e de canais de televisão aberta ou fechada voltados para a Educação Formal e informal. Precisamos de televisões e videocassetes nos quais os professores possam fazer demonstrações aos seus alunos, exibir vídeos de treinamento e de procedimentos, apresentar situações problemas para que solucionem, proporcionar debates entre eles sobre as mais variadas situações. Precisamos de microcomputadores, nos quais os alunos possam fazer auto-avaliações e participar de apresentações interativas, com os quais possam interagir dentro do ritmo de trabalho inerente a cada um. Precisamos de acesso dos alunos à Internet para que pesquisem bibliografia, troquem idéias, e sobretudo conheçam o ensino no resto do mundo.
Nossa tradição em megaempreendimentos nos leva a execução de uma concorrência, nacional ou internacional, com um ganhador da concorrência que irá auferir lucros fabulosos na implantação do projeto, mas que se desobrigará da manutenção e da atualização. Quando se fala em Educação à Distância, causa-se enorme alvoroço. As montadoras de micros querem saber qual será a plataforma mínima, para que possam vendê-la pelo preço máximo. Autores de software educativo estrangeiros nos querem vender direitos de tradução, porque o que é bom para eles o será para nós. Produtores de courseware querem impor suas soluções prontas alegando que não podemos formar programadores em Lingo ou em Java. Todos querem que o empreendimento seja muito lucrativo!
Dentro do contexto do último parágrafo, nos ocorre o outro óbice que é a falta de patriotismo dos detentores do processo decisório. Falta-lhes a avaliação estratégica de que qualquer decisão errada que tomemos no presente momento poderá inviabilizar o futuro da Educação à Distancia em nosso meio. Como bem diz o Prof. Waldmir Pirró Longo, "se errarmos na Escola hoje, perderemos o século".