Educação à Distância: ações estratégicas
Prof. Dr. G. L. Santa Rosa
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Novembro de 1999
Analisando-se a atual conjuntura podemos verificar que, se fossemos uma nação rica, com carência de mão de obra qualificada associada a uma ampla oferta de emprego nessa área e um desemprego restrito à mão de obra não qualificada, ofereceríamos condições ideais para um megaempreendimento, de cunho particular e extremamente lucrativo.
Fossemos nós um pais pobre, com elevadas taxas de desemprego independentemente da qualificação profissional, mas em cujo governo campeasse a corrupção em todos os escalões, no qual o pagamento de propinas estivesse institucionalizado, haveria condições propícias a projeto governamental de grandes proporções, com grande dispêndio de verbas públicas. Agências financeiras internacionais estariam dispostas a oferecer financiamentos a projetos desta natureza desde que houvesse concorrências internacionais para aquisição de hardware e de software nas grandes empresas multinacionais ou em suas subsidiárias. Muitas propinas seriam distribuídas aos governos locais, pessoas nomeadas para agências fiscalizadoras e a gestão do projeto seria uma concessão, vendida com financiamento de agências de fomento, a uma empresa com capitais nacionais e internacionais. Muitos se locupletariam, tornando-se desnecessária por inconveniente, a instalação da moralidade.
Como não estamos em nenhuma das situações supradescritas cremos que a implantação da Educação à Distância em nossas universidades deva ser precedida de uma série de ações estratégicas a serem tomadas, com firmeza, no prazo aproximado de dois anos.
Formação de cultura micreira e multimídia nas universidades.
A cultura micreira, entendendo-se como tal a familiarização com microcomputadores e o relativo domínio de seu emprego, está longe de ser alcançada em nossas universidades. Alguns poucos docentes criam home-pages de conteúdo didático e/ou comunicam-se com os alunos por meio de correio eletrônico. Muitos ridicularizam os alunos que realizam pesquisa bibliográfica via Internet. Poucos são os docentes cujos micros tem placa de som ou mesmo placa de vídeo adequada a programas multimídia. Muitos departamentos universitários vêem o micro como uma sofisticada maquina de escrever, capaz de preencher planilhas e formulários indispensáveis às atividades burocráticas. Surpreendem-se quando se fala em colocar micros nas salas de aula. Projetores tipo datashow, ainda vai, mas interatividade, jamais...
O alunado mostra, numa proporção crescente, que já está em torno de 25% na área da saúde, familiarização com os micros. Os alunos montam seus próprios micros, muitos são 486 com peças desprezadas pelas empresas que fizeram upgrades, mas tem 16 Mb de Ram, placa de som, CD-Rom 2 ou 6x, modem 14400 ou 28800, mas funcionam, rodam multimídia, e acessam Internet. Enquanto isso, nas Universidades, vemos Pentium III nas secretarias de unidades universitárias e 486, só com editor de texto, em laboratórios de pesquisa.
Modificação radical da política de aquisição de microcomputadores pelas universidades brasileiras.
Nossas autoridades fingem não saber que hoje não há mais fabricantes de microcomputadores. Todos são montadores que reúnem peças de variados fabricantes orientais. Nisso muito se assemelham à indústria automobilística. Há no entanto uma diferença crucial: se alguém fosse comprar as peças para montar um automóvel tipo Volkswagen gastaria um capital dez ou mais vezes maior e se alguém quiser montar um computador tipo IBM gastará a metade ou mesmo a terça parte... Para que o preço não fique por demais absurdo as grandes empresas despem o equipamento das opções de multimídia, do software básico para interatividade, dos requisitos usuais de memória e estabelecem regras de garantia que tornam o upgrade ou atualização do equipamento inteiramente inviável. Devemos passar a adquirir equipamento atualizado e atualizável, fugir do topo de linha, como fugimos em nossas aquisições pessoais. Dá vergonha a qualquer docente micreiro saber que sua universidade pagou à vista o dobro do que ele pagou em 12 prestações por um equipamento muito superior.
Liberação de entraves burocráticos à destinação da sucata de micros das universidades aos diretórios acadêmicos, para explorar a criatividade dos discentes na montagem de micros.
As sucatas das universidades estão repletas de equipamento, que alunos saberiam reaproveitar. Temos o material, a mão de obra qualificada, falta-nos a vontade política para afastar os entraves burocráticos, dar baixa na carga patrimonial destas sucatas, entregá-las aos diretórios acadêmicos e criar a cultura do upgrade ou evolução do equipamento. Além do benefício financeiro estaríamos criando uma cultura de reciclagem e de economia ao mesmo tempo que aproveitaríamos os dotes de criatividade de nossos alunos.
Utilização de microcomputadores no ensino presencial
Os microcomputadores ainda estão alijados do ensino presencial brasileiro.
Ë muito importante incentivar nossos docentes a utilizarem os microcomputadores no ensino presencial. Alguns já usam o micro para a redação de textos didáticos, uns poucos criam apresentações para exibição em transparências ou datashow. Muito poucos são os que transformam as apresentações em programas multimídia, com pouca ou muita interatividade. Faz-se mister que a interatividade passe a ser empregada em grande escala no ensino presencial. Todos concordam em ver os inconvenientes das aulas expositivas e teórico demonstrativas. Poucos se aventuram a utilizar os princípios dos pequenos passos, ritmo próprio , resposta ativa, confirmação imediata da resposta e reforço imediato; uns porque desconhecem outros porque temem serem rotulados de mecanicistas. Mas as discussões em grupo também não são priorizadas no ensino presencial. Acabam sendo substituídas por trabalhos em grupo extra-classe, cuja validade é sempre muito discutível.
Hoje todos os jornais trazem os endereços eletrônicos de suas seções e de seus articulistas, mas quantos alunos conhecem o endereço eletrônico de seus professores, ou de sua escola? Quando a cultura micreira do jornalismo chegará à escola?
Desenvolvimento de modelos arquitetônicos de salas de aula que privilegiem o trabalho em grupo e o ensino interativo com auxílio de microcomputadores.
O modelo arquitetônico da sala de aula atual é o mesmo do século passado. Os alunos, passivamente enfocam o professor o quadro ou a tela. Pouco importa que tenha mudado a cor do quadro ou que o giz tenha sido substituído por canetas coloridas. São salas que não favorecem o trabalho em pequenos grupos de alunos. É preciso mudar o enfoque. Substituir o professor alvo dos alunos por um outro modelo no qual grupos de alunos sejam orientados pelo professor. Possibilitar ao professor manter-se circulando entre os grupos. Agrupar alunos em cada canto da sala é uma solução. Organizar um corredor de alunos, percorrido pelo professor, pode ser outra. O modelo atual já está desgastado. Causa angústia observar salas com filas de mesas, cheia de computadores, todos voltados para o professor no quadro. É o cúmulo do anacronismo. O centro das atenções tem que ser o aluno, não o professor, o quadro ou a tela.
Reconhecimento da preparação de material didático interativo como trabalho docente incentivado com gratificação (GED)
A pontuação adotada para avaliação docente para fins da gratificação de estímulo à docência (GED) poderia ser usada para ampliar a utilização de microcomputadores no ensino presencial. Gratificar a implantação e gerência de grupos de discussão, a criação de material interativo, a implantação de páginas de cada disciplina, dentro do site institucional na Universidade ou fora dele seriam medidas simples mas de grande alcance. Faz-se mister reconhecer a publicação eletrônica como uma das formas de publicação.
Apoio ao uso do CD-ROM multimídia interativo como forma de apresentação de Anais de Congressos Científicos e de programas de treinamento.
A publicação em CD-ROM é um meio prático, barato, moderno e eficiente de distribuir e possibilitar a consulta de anais de congressos e de programas de treinamento. Sistemas sofisticados de busca, interatividade, apresentação de filmes e imagens estáticas de alta definição podem ser usados no mais econômico dos meios. Além disso, a utilização da Internet se faz de modo muito mais eficiente se os elementos que fazem uso intensivo de memória estiverem presentes em CD-ROM, do mesmo modo que programas distribuídos em CD-ROM podem ser programados para atualização constante via Internet.
Contam-se pelos dedos os livros brasileiros, exceto os de informática, que tragam um CD-ROM no qual exibam sons, ilustrações imagens, autoavaliações interativas, etc.
Implementação de núcleos de desenvolvimento de multimídia acessíveis aos corpos docente e discente. Pós-graduação sensu latu e sensu strictu em Multimídia e em Educação à Distância.
Algumas universidades vem implantado núcleos de desenvolvimento de multimídia com um enorme sucesso. Tais grupos tem conseguido projetos de instituições governamentais que lhes possibilitam manter um grupo de profissionais de alto nível, o que não teria sido possível com as restrições vigentes à contratação de pessoal. Exemplos há nos quais até o equipamento foi adquirido graças aos contratos de venda dos produtos. Serviriam ainda tais núcleos como centros de especialização que tornassem as Universidades independentes de programas de gerenciamento e programação, courseware, cuja vida útil não ultrapassa cinco anos. Poderiam usar modernos softwares de autoria comerciais, mas teriam o total controle do gerenciamento de cursos.
Treinamento de docentes na utilização de programas de baixa interatividade e programas de autoria de alta interatividade
Podem as universidades usar o treinamento de seus docentes e discentes nos programas de baixa interatividade, de autoria ou de gerenciamento, para começar a ambientá-los com a produção de multimídia. Não se esperará que um número significativo de docentes de conteúdo se venham a tornar programadores de multimídia, mas é de importância que os professores venham a conhecer as potencialidades da multimídia e que saibam onde encontrar os roteiristas, programadores e designers capacitados a dar uma forma mais profissional às suas iniciativas.
Incentivo à armazenagem de Homepages de docentes e de discentes em sites universitários.
Os atuais sites das universidades são paupérrimos em conteúdo didático. Mostram instalações, estruturas administrativas, ocultam a composição de seu corpo docente (para esconder fraudadores da DE?). Ocultam seu patrimônio e custos operacionais (para escapar das fiscalizações?) Nem ao menos abrem a seus docentes e discentes a oportunidade de lá albergarem suas páginas de conteúdo. Aquelas que o fizerem permitirão a implantação mais fácil do micro no ensino presencial e marcarão sua presença na Web para a futura implantação do EAD.
Implantação de Intranet nas Universidades.
Não tem muito cabimento falar-se em ensino à distância numa Universidade desprovida de sua Intranet. Esta deve ser uma etapa preliminar. A ampla rede de fibra ótica que serviria à Intranet seria um dos arcabouços indispensáveis a qualquer veleidade de criação da Universidade virtual.
Apoio a iniciativas de implantação de módulos de ensino à distância como atividades de extensão universitária.
Implantar um projeto de Ensino à Distância para a formação de qualquer profissional é uma tarefa hercúlea. Muitas são as oportunidades de fracasso da iniciativa, com conseqüente desmoralização do sistema. Implantar um ou outro módulo de ensino à distância como atividade de extensão, observar a aceitação e ir expandindo os módulos e a população alvo é uma estratégia obediente aos imperativos do bom senso.
Incentivo à utilização de correio eletrônico como meio de consulta e integração docente-discente.
O correio eletrônico precisa ser reconhecido como uma das mais eficientes formas de orientação de alunos. A prática de correio eletrônico entre docentes, monitores e discentes tem tido boa aceitação entre nosso alunado. O número de consultas cresce dia a dia e o conteúdo das consultas mostra um ganho crescente em profundidade e objetividade. Nota-se que o contato eletrônico, no mais das vezes, antecede o contato pessoal.
Planejamento e execução de módulos isolados de Ensino à Distância, para ramos da Educação desassistidos na Educação Formal. Por exemplo: Educação Nutricional. Educação Sanitária, Educação de Trânsito, Educação para Cidadania, etc.
Há alguns ramos da Educação, sabiamente contemplados em nossa Constituição, que são ainda desassistidos pela Educação Formal. Deveriam ser estes os alvos preferenciais da Educação à Distância. Não lhes faltariam patrocinadores entre as entidades envolvidas nos processos e sequiosas de publicidade. Filmes, CD-Rom, Internet, seriam os principais meios pelos quais as universidades poderiam disseminar conhecimentos corretos nestas áreas, dominadas pela difusão de noções equivocadas, do interesse de anunciantes.
Criação da Universidade Virtual, pela reunião das iniciativas universitárias bem sucedidas.
Não se pode atingir a Educação à Distância sem ter passado pelo Ensino à Distância, nem a esse sem ter passado pelo presencial interativo. A universidade Virtual deverá surgir naturalmente ao ser atingida a massa crítica de iniciativas bem sucedidas das diversas Universidades.
Não podemos nos permitir cometer erros em matéria de Educação.
Conclusões
Na análise da atual conjuntura com relação ao movimento pela implantação da Universidade Virtual no Brasil estudam-se os fatores favoráveis e os adversos. Desse estudo, conclui-se pela adoção de uma política gradualista que tomaria corpo ab initio pelo engajamento de nossas Universidades na utilização de microcomputadores no ensino presencial, passaria pela disseminação de uma cultura micreira nos corpos docente e discente e pela implantação de Intranet em todos os centros universitários. A presença docente e discente na Internet deveria ser incentivada de molde a possibilitar o estabelecimento de alguns módulos voltados à extensão, ao treinamento e à especialização.
Os mesmos organismos internacionais, que propugnam pela criação da Universidade Virtual, não teriam nenhuma justificativa ética para se furtarem a apoiar sua implantação gradual. Nessa política, a implantação da Universidade Virtual surgiria naturalmente do somatório das diversas realizações, sem que se corresse o risco de um retumbante insucesso, o que inviabilizaria a iniciativa, com o comprometimento do conceito de Educação à Distância, pela vulgarização de procedimentos moral e didaticamente discutíveis.