Projeto Conceitos e Preconceitos
Um Ensaio Sócio-imunitário: Seleção linfocitária T e B--Castas de Mauricinhos e meninos de rua
Prof. Dr. G.L. Santa Rosa
Baseado em:
Sarah E. Townsend, Bennett C.
Weintraub and Christopher C. Goodnow
Immunology Today 1999,
20:217-220
Townsend et al.1 publicaram recentemente um artigo no qual analisam o desenvolvimento dos linfócitos B e T numa feliz metáfora sociológica, ainda que politicamente incorreta, na qual mostram como as células da linhagem B "amadurecem nas ruas". Procuraremos resumir o ponto de vista dos autores de forma livre, escoimando-o de algumas impropriedades de natureza histogenética e de um posicionamento teleológico que costuma acompanhar todas as metáforas antropomórficas e sociomórficas.
O reconhecimento de antígenos pelos linfócitos T e B é fundamentalmente diverso. :O reconhecimento T acha-se inexoravelmente relacionado com o reconhecimento do autólogo (self). Os linfócitos T reconhecem os peptidios antigênicos complexados com moléculas do complexo principal de histocompatibilidade (MHC) limitando sua capacidade de reconhecimento a epítomos (determinantes antigênicos) apresentados por outras células. A seleção clonal preside este reconhecimento ao permitir a maturação apenas das famílias de células que captam HMC através da seleção positiva na córtex. Na medula, suprime os ancestrais que se unam fortemente aos complexos peptidios autólogos/MHC enquanto residiam no timo.

Migração esplênica de células B. Imagens de imunoflorescência de linfócitos B lisozima-específicos (a e c) e representações destas imagens. Células específicas em verde Vida média 1-4 semanas. Ausência de lisozima (a , b) Presença de lisozima (c , d) Na presença de antígeno as células lissozima específicas são excluídas d dos folículos B para as áreas T externas onde morrem em 1-2 dias. Segundo Toownsend e col. (opus. cit.)
Os sinais capazes de estimular a ativação dos linfócitos descendentes T na periferia foram capazes de induzir a eliminação das ancestrais que se encontravam no ambiente protegido do timo, num mecanismo que protege contra a autoimunidade. Metaforicamente são indivíduos de casta privilegiada, criados em ambiente protegido, positivamente selecionados por apresentarem determinadas características, eliminados quando exibem potencial anti-social e aos quais, em caso de boa adaptação social durante o rito de iniciação, lhes é permitida a reprodução e exercício de seu papel social. A terminologia, em lingua inglesa, naïve e primed adequam-se perfeitamente a essa metáfora. As traduções correntes virgem e armada traduzem inadequadamente o sentido original. O sentido original é muito mais de despreparadas, ingênuas ou inocentes e iniciadas que os termos virgem e armadas, sugestivos de metáforas sócio-sexuais, chulas e machistas. Os pintores bem conhecem as dificuldades da tradução de ambos os termos e mantém as palavras originais naïve para indicar os pintores ingênuos ou primitivos e primer para a primeira mão de tinta que dão ao preparar as telas.
Os linfócitos B são capazes de reconhecer antígenos solúveis, não associados a células. As células precursoras dos linfócitos B migram do fígado fetal ou da medula óssea (dependendo da época) para as áreas B dos órgãos linfáticos periféricos onde vão dar origem a linfócitos B cujos ancestrais não passaram pelo rito de iniciação no timo.
Há, no entanto, evidencias de que células colonizadoras B, com níveis altos de antígeno termo-estável (HSA), migrem para as áreas T da polpa branca esplênica, contrariamente ao que ocorre na linhagem T na qual as células colonizadoras T perdem a expressão de HSA. A questão chave seria saber se as células B imaturas seriam contra-selecionadas dentro das zonas T esplênicas por carecerem de uma dada característica para a seleção positiva ou por carrearem uma característica negativa para aquela mesma especificidade. MandiK-Nayak et al.2 demonstraram que as células B anti-dsDNA (DNA dupla hélice) não são eliminadas na medula óssea e são exportadas para o baço como células relativamente imaturas com uma vida média curta em relação ao grosso do repertório.
Parece provável que células da linhagem B com diferentes especificidades auto-reativas se juntem à população periférica B dentro do baço e lá sejam submetidas à seleção clonal. Essa periferia da zona T do baço tem sido destacada como o local de início da resposta auto-imunitária em camundongos tendo sido sugerido que a produção patológica de autoanticorpos possa resultar da deficiência da tolerância das famílias de células B nestes locais.3
A pressão evolutiva da seleção que resulta do desenvolvimento do repertório dos linfócitos T e B é a mesma: gera-se, em cada caso, uma gama de especificidades que protegem contra varias e imprevisíveis doenças infecciosas e limitam a reatividade contra determinantes autólogos. No animal, como indivíduo, essa pressão atua dotando-o de um repertório mais efetivo num dado tempo e local; mais capaz portanto de sobreviver e reproduzir-se. Para a espécie, como um todo, a diversidade de repertório numa dada população eleva a probabilidade de que alguns de seus membros possam sobreviver a uma epidemia.
Nos linfócitos T embora os mecanismos de tolerância da seleção clonal deixem fendas no repertório passíveis de serem aproveitados por microrganismos que mimetizem, ainda que de forma não intencional, determinantes autólogos, estas falhas são minimizadas pelas moléculas polimórficas do MHC de modo que cada indivíduo é dotado de um repertório completo de linfócitos T, com fendas diferentes. Portanto, o polimorfismo do MHC acrescenta proteção sanitária à população como um todo.
Como os linfócitos B reconhecem antígenos autólogos e a maioria de nós expressa o mesmo conjunto de proteínas nativas, qualquer fenda no repertório de linfócitos B, criado pela seleção clonal seria a mesma para toda a população o que poderia acarretar grande risco face a agentes infecciosos que mimetizassem auto-antígenos. A inexistência de tamanhos riscos explica-se pela exportação de células B auto-reativas de vida curta para o pool esplênico de células B. Em qualquer indivíduo da população, num dado momento, há um repertório de células B de vida curta que estão excluídas de entrar nas áreas B foliculares. Na ausência de estímulo antigênico estas células morrem, na zona marginal, em poucos dias não chegando a gerar uma prole, capaz de causar grandes riscos de doenças auto-imunitárias.
Devido a expressão e recombinação do BCR de seu genoma, cada indivíduo irá expressar um repertório de células B diferente com uma propensão diversa ao surgimento de doença autoimunitária desencadeada por um xeno-antígeno.
Portanto, durante a evolução do sistema imunitário, torna-se o indivíduo um portador de famílias de células cujos antepassados foram iniciados no ambiente protegido do timo e de outras famílias cujos ancestrais não tiveram o mesmo destino; foram lançados na periferia, em contato direto com os antígenos. Os sobreviventes, que tem vida curta, aprendem a reagir aos estímulos, independentemente da educação precária de seus antepassados, multiplicando-se e adquirindo novas potencialidades de reação ao se diferenciarem em plasmócitos dotados de armamento de grande alcance. Para isso alguns podem contar com o auxílio de alguns membros das famílias iniciadas no timo. Vez por outra, falha o sistema e o organismo, como as sociedades, pode se defrontar com a associação entre membros das famílias iniciadas e das famílias despreparadas que questionam o estabelecido, numa ação autoagressora.
Aproveitando a deixa da metáfora de Townsed, diríamos que não há, de parte do sistema imunitário uma intenção, ou horror autotóxico, neste complexo mecanismo de castas, da mesma forma como as sociedades organizadas em castas não teriam a deliberada e consciente intenção de prejudicar aos excluídos e dificultar sua prolífica reprodução, embora, inexoravelmente, o façam.
Bibliografia
1) Sarah E. Townsend, Bennett C. Weintraub and Christopher C.
Goodnow
Immunology Today 1999, 20:217-220 Texto integral Growing up on the streets: why B-cell development differs from T-cell
development
www.biomednet.com/library/trends/
2) Mandik-Nayak L., Bui
A., Noorchashm H., Eaton A. and Erikson J. (1997)
J. Exp. Med.,
186:1257-1267. [Full
text] [MEDLINE] [Cited
by]
3) Jacobson B.A., Rothstein T.L. and Marshak-Rothstein A. (1997)
Immunol. Rev., 156:103-110. [MEDLINE] [Cited
by]
Editada em 15/11/01