Cena de Rua
A cena passa-se na Rua Barata Ribeiro, esquina de Santa
Clara, às seis horas da tarde. Na direção um britânico professor de
histologia. No banco do carona outro professor, de origem franco-portuguesa, no
banco de trás a esposa do motorista e um então monitor. O carro para no sinal,
em frente ao ponto de ônibus...
O eminente professor carona, ao ver um travesti com os
cabelos pintados de vermelho vivo que esperava condução, não resiste e
dispara: "Pintaste também os da bunda?", bem na hora em que o sinal
ia abrir...
O britânico motorista enrubesce e não consegue dar partida
no carro... O travesti se ofende e mimoseia-os com os maiores impropérios.
Todos os circunstantes querem saber o que houve... Os carros de trás buzinam
freneticamente... Duas alunas da Faculdade presenciam a cena...
Quando já vinha um guarda para tomar providências, o
professor consegue arrancar o carro...
Pernoite
O professor lecionava, durante cerca de dez anos,
Histologia às tardes de um dia e manhãs do dia seguinte. Embora não fosse
nenhum Apolo, colecionou algumas perguntas e insinuações que lhe foram feitas
por alunas durante este período.
-- Não sei se vou conseguir chegar amanhã na hora da aula.
Minhas colegas de apartamento viajaram todas e vou dormir sozinha...
-- Em que hotel o senhor pernoita, entre as aulas, aqui na
cidade?
-- Eu e a fulana dividimos um apartamento. O senhor bem que
podia ir para lá, jantar conosco e nos preparar para a prova de amanhã...
-- O senhor está com uma camisa da mesma cor da que usava
ontem. Estão dizendo por aí que dormiu na casa de uma aluna...
-- No hotel onde o senhor pernoita pode receber visitas?
-- O senhor já deve estar com as provas na pasta. Não tem
medo de ser seqüestrado por uma aluna?
-- Não vai se arriscar a pegar a ponte com esse temporal.
Dorme lá em casa... a outra menina não se importa, é muito liberal...
-- É verdade que o senhor vai para dormir em casa e volta
para dar aula amanhã cedo. Me diz como é que eu faço para arranjar um marido
tão fiel...
-- Estão dizendo que o senhor está com cara de sono porque
passou a noite toda com a fulana e que ela tirou dez por isso.
-- Moramos sós, eu e meu filho de dois anos. Caso queira
posso lhe alugar um quarto para pernoitar.
-- Hoje o senhor está com cara de quem não dormiu em
casa...
-- Sua aula de ontem mexeu comigo... não consegui dormir
direito, tão excitada eu estava...quase liguei para o seu celular no meio da
noite para me acalmar...
-- O senhor ensinou tanta coisa sobre língua que não tem
nos livros... O senhor parece que sabe tudo sobre língua, não é?
-- Se eu lhe mostrar meu hímen, o senhor me diz se é
complacente ou não?
-- Apostei com minha amiga que, na sua idade, o homem ainda
tem ereção.
-- O senhor disse, para toda turma ouvir, que não sossega
enquanto não me ensinar ossificação... quero te dizer, baixinho no ouvido,
que quero que me ensine muito mais coisas...
No Motel
O professor foi a um motel da barra com a secretária, uma
menina de dezoito aninhos. Ao ver aquele quarto modernoso, com uma enorme peça
que unia uma cama de colchão d'água a uma cabeceira enorme a menina se
empolgou... Quando ele tirou-lhe o sutiã ela jogou para cima da cama num gesto
teatral. O dito voou como um bumerangue, bateu na parede e desceu,
verticalmente, acolado à parede. Desceu escorregando e o casal espantado ficou
olhando enquanto o sutiã se introduzia numa apertada fresta entre a cabeceira e
a parede.
-- Não posso chegar em casa sem ele, soluçava ela. Não, comprar um novo
não adianta. É minha mãe que lava minha roupa e vai perceber...
A única solução foi a menina desaparecer no banheiro da
suite enquanto o mestre pedia ajuda à telefonista. Foi preciso chamar quatro
funcionários que removeram o pesadíssimo colchão, arrastaram toda a estrutura
da cama e resgataram a peça fujona...
Mal restou tempo para uma rapidinha meio desajeitada...
A maior parte dos leitores deve ter achado muito
divertido, mas aos protagonistas sobrou uma graça meio amarga...