Projeto Conceitos e Preconceitos

  Informatização das Universidades Brasileiras   Prof. Dr. G.L. Santa Rosa Em 13 de maio de 1998

Ninguém duvida da urgência em se promover a informatização das universidades brasileiras, mas como fazer esta informatização está longe do consenso. Diversas são as visões que se apresentam, todas elas muito distantes do que tem sido a prática corrente. Na visão dos administradores, sejam universitários ou não, a informatização é um dinamizador do processo burocrático, e o microcomputador é um objeto destinado a ocupar na mesa das secretárias o espaço anteriormente destinado às máquinas de escrever e calcular. Neste sentido tem sido privilegiada a informatização dentro dos parâmetros que, em cada departamento ao menos uma máquina de escrever tem sido substituída por um microcomputador com editor de texto e impressora.

É interessante notar que ao falarmos de informatizar as escolas de primeiro grau pensa-se em crianças lidando com software educativo, pesquisando na Internet, e trocando mensagens de e-Mail ou ICQ com estudantes de outros países. Hoje a televisão noticiou que Minas Gerais gastou R$20 000 000,00 para comprar cerca de 450 micros para escolas de primeiro grau que estão parados desde janeiro por falta de professores habilitados... Mais de quatro mil reais por micro nessa bandalheira! Parece até que esquecemos as origens da Internet, do tempo em que era um instrumento de troca de idéias e informações entre estudantes e pesquisadores universitários que acessavam a Internet através do mainframe. A Internet de texto do mainframe, ganhou a interface gráfica dos microcomputadores e invadiu as residências. Nesta hora o comércio e os bancos perceberam a grande oportunidade de lucros neste mercado e os sites comerciais passaram a predominar. As Universidades ficaram para traz...

As grandes empresas montadoras de microcomputadores, que se dizem fabricantes de marcas definidas, se interessam pelo mercado potencial das Universidades. Oferecem microcomputadores fora de linha ou modelos mínimos, rotulados como enter level, já na certeza de que estarão obsoletos em menos de um ano e cujo upgrade é arquiteturalmente impossível. As condições parecem boas: o preço é o de mercado e o prestígio da marca facilita ganhar a concorrência mesmo que não haja corrupção na licitação. Pessoalmente, considero um desrespeito ao nome IBM quando a IBM Brasil vende a uma universidade um lote de micros 486 com 4MB de RAM e HD de 1.2 GB, com Win 95 e Word. Alegar que a culpa é da demora da licitação, que a escolha do modelo foi do MEC não é justificativa para quem pretende vender soluções. Na realidade cada professor universitário tem o conhecimento necessário para saber que micro precisa e quando deve fazer o upgrade de cada um de seus componentes. Foram as universidades que criaram a microinformática e a Internet no Brasil!

As montadoras da indústria automobilísticas são menos vorazes. assumem que comprando componentes em grande quantidade tem descontos substanciais e portanto podem vender um carro montado por um preço centenas de vezes menor que a soma dos preços dos componentes comprados na loja da esquina. Com as montadoras de micros é diferente. Podemos montar em uma hora um micro com os mesmos componentes, comprados na loja da esquina, pela metade do preço do produto acabado e com garantia para cada componente igual àquela garantia dada pela montadora. As montadoras não se assumem como montadoras. Fingem-se de fabricantes e chamam os montadoras independentes de piratas, como se o know-how de montagem de micros não fosse de domínio público nas arquiteturas abertas.

No momento presente urge dotar cada curso de nossas universidades de um laboratório de microinformática e aproveitar a criatividade de nossos docentes na produção de software educativo para estes laboratórios. Otimizado o acesso à Internet pelas redes de fibras óticas que se estão desenvolvendo poderão os discentes e docentes acessar os softwares de outras universidades do Brasil e do Exterior, e obter as informações indispensáveis à construção de seu conhecimento. Não faze-lo é limitar o acesso à informação atualizada aos poucos privilegiados que dispõe de microcomputador doméstico ligado à Internet e TV a cabo. Será esse o objetivo dos sociólogos no poder?

Um passeio rápido pelos sites das Universidades Brasileiras nos mostra que são poucos os que disponibilizam trabalhos de seus docentes. Estes são mais facilmente encontrados nas páginas pessoais. Nestas podemos encontrar alguns bons trabalhos feitos por discentes com orientação docente, o que confirma a tese de que o Brasil progride apesar de seus dirigentes. É preciso muito idealismo para trabalhar assim nas piores condições, sem perspectivas de futuro, sendo acoimado de marajá e vagabundo. É esse idealismo, esta vontade de realizar, que nos leva a crer que, se lhes entregarmos os componentes e a orientação disponível na área acadêmica, poderão eles implantar uma rede de laboratórios de informática passível de constante atualização e a um custo muito inferior que o atualmente pago às multinacionais.

No nosso campo específico vemos com pesar verbas escassas serem gastas em microscópios de estudos, projetores de slides, coleções de lâminas e preparados histológicos, desvios ilícitos de cadáveres de cemitérios e asilos para o estudo de imagens disponíveis aos milhares na Internet. É nessas imagens que estudam os futuros médicos nos EEUU, no Reino Unido, na França, na Alemanha, no Japão, países cuja medicina não é pior que a nossa. Alguém anda roubando e continua roubando e, pelo jeito vai continuar roubando nos próximos anos. Lamento ver que querem que se prepare profissionais modernos com os meios de ensino que utilizei em meus estudos iniciais, há quarenta anos. Lamento que um cantor de sucesso vá a Baltimore para ser biopsiado. Lamento igualmente que a Universidade não esteja preparando adequadamente os professores que minhas netas terão quando chegarem ao segundo grau e universidades. Lamento ver que, mesmo que quisesse, não poderia manda-los estudar no exterior, como os netos de nossos ministros.

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