Projeto Conceitos e
Preconceitos
Bases Histofisiológicas do orgasmo feminino - A sopa de
letras indiana
Prof. Dr. G. L. Santa Rosa
Janeiro de 1999
Recebi a pergunta abaixo e relutei em colocá-la
entre as dúvidas mais freqüentes, visto que raramente é externada. Pareceu-me,
portanto, Conceitos e Preconceitos ser o local de escolha, inclusive pelas
dimensões e aprofundamento da resposta.
Professor:
Será que os livros de Histologia e de Anatomia desconhecem os aspectos da histologia da vagina relacionados com o orgasmo feminino? As sexólogas falam da localização anatômica de pontos orgásticos, sobre os quais as histologias se calam. Por que? É tabu? É machismo? Quem faz a automanipulação destes pontos constata a veracidade das informações. Em anexo estou enviando uma ilustração que tirei, não de algum livro da Faculdade e sim de um jornal dominical.
Não há dúvida que o tabu existe. Tanto é
verdade, que a colega consulente usou um redirecionador para esconder o
endereço de e-mail da remetente. Tanto é verdade, que ao programar um curso
integrado sobre reprodução humana para alunos de um curso de medicina, em 1982
fui chamado ao gabinete do Diretor da Faculdade, porque uma aluna havia apontado,
no programa uma aula sobre a fisiologia do coito, ao general seu pai e este
exigira do Diretor que esta aula fosse retirada da programação...
Hoje os tempos são outros, sem dúvida, embora
ainda não se fale em coito durante o curso médico, salvo quando a medicina
legal trata de sua criminalização. Vamos tentar responder do modo mais
objetivo.
As práticas orientais são conhecimentos
milenares que se baseiam em observações de resultados e para os quais os
antigos buscaram justificativas de cunho quase sempre morfológico, mas
desprovidas de apoio na realidade. Pratica-se hoje a acupuntura com base na
medicina chinesa tradicional, sem que se admita a existência dos tais canais
comunicantes entre os pontos de acupuntura e os órgãos correspondentes, passando
pelos chamados meridianos. Desconhecemos mais do que sabemos sobre os fenômenos
envolvidos na acupuntura, entretanto temos explicações envolvendo a apomorfina
que eram totalmente desconhecidas dos antigos. Coisa semelhante ocorre com o
Kamasutra e toda a cultura oriental do prazer sexual. Sabemos que fenômenos
psicológicos, envolvendo condicionamento respondente ou pavloviano e operante
ou skineriano, são muito mais importantes que localizações anatômicas definidas
na determinação de pontos eróticos do Kamasutra. Muitas mulheres são excitadas
sexualmente, até ao orgasmo, com um beijo na nuca, ou mesmo na palma da mão.
Isto porque estes locais tão ricos em terminações nervosas sensitivas quanto os
mamilos, pequenos lábios, colo uterino ou clitóris. Peculiaridades individuais,
condicionamento, reatividade seletiva?
Seus livros de Anatomia, Histologia e de
Fisiologia ressaltam que a inervação sensitiva da vagina é bastante escassa e
restrita ao intróito vaginal, o que é, aliás, do conhecimento de todas as multíparas,
que referem a passagem do feto pelo colo uterino, pelo intróito, mas não
percebem a localização intravaginal do polo cefálico.
Inervação sensitiva da genitália
feminina
Tais livros não referem a sopa de
letrinhas que existiria na vagina, segundo os artigos de sexólogos
em revistas leigas. Apenas o ponto P, da figura, por corresponder ao colo
uterino, tem expressiva inervação sensitiva. Já a inervação vasomotora da
mucosa vaginal ou endocolpos, essa é muito abundante e percorre as pregas da
mucosa. Notamos duas longas pregas longitudinais, paramedianas em ambas as
faces, anterior e posterior da mucosa vaginal. Não são coincidentes, por isso
se acomodam na vagina vazia, colabada, uma ao lado da outra. Destas pregas ou
colunas longitudinais partem pregas transversais secundárias, em desenhos variados
que se assemelham a uma espinha de peixe ou a uma conífera de onde o nome árvore
da vida, que lhes deram os antigos anatomistas. Estudos recentes em mulheres
paraplégicas tem demonstrado que fibras aferentes vagais podem levar ao
cérebro estímulos oriundos da parede anterior da vagina adjacente ao
intróito.
A origem das colunas ocorre numa elevação
nodular, adjacente ao intróito vaginal que se denomina o tubérculo vaginal. Terminam,
as colunas, num espaço triangular, adjacente ao trígono da bexiga. Este
tubérculo vaginal da menina ou mulher adulta não deve ser confundido com o
tubérculo genital do fim do período embrionário que se irá diferenciar na
glande do pênis ou do clitóris. A região da vagina adjacente ao tubérculo
vaginal torna-se entumescida e a musculatura lisa vaginal contrai-se ritmadamente
durante a fase orgásmica, massageando
suavemente o pênis. . A localização desta elevação ou tubérculo
poderá corresponder ao denominado ponto G, mas sua inervação é escassa e
predominantemente vasomotora. O desenvolvimento da musculatura desta região,
atribuindo-lhe uma capacidade contrátil expulsiva, através da tecnica do
pompoarismo, pode ter muito valor anedótico, mas pode ser contraproducente para
a boa realização sexual. Considerando os fatos expostos,
perguntar-se-ia: Se assim é, por que nossa consulente, ou alguém
de seu conhecimento, chegou ao orgasmo manipulando exatamente esta saliência,
ou tuberosidade? Porque estimulou seu clitóris e porque já estava condicionada
que o orgasmo era uma experiência extremamente prazeirosa.! Nenhuma mulher
anorgásmica passa a tê-los por estimular exclusivamente o tal ponto G.
Durante a fase de excitação sexual a mulher
experimenta uma série de fenômenos vasomotores, resultantes da estimulação de
nervos pudendos ou de estímulos de origem cortical que podem ser desencadeados
de várias maneiras, salientando-se no caso o valor das palavras ou o tom em que
sejam proferidas. Parece que o homem é mais sensível à excitação por estímulos
visuais enquanto a mulher reage mais intensamente a estímulos auditivos. Na via
final de tais estímulos estão mediadores que promovem vasodilatação das vênulas
e o aumento de sua permeabilidade. Poucos são os capilares na lâmina própria do
endocolpos, mas muito abundantes as vênulas de tipo semelhante às encontradas
no tecido muscular, na mucosa nasal e no mamilo e muito reativas à epinefrina,
nor-epinefrina e histamina. A congestão leva ao edema, constrição da luz
vaginal, protusão das pregas vaginais e transudação de plasma através do
epitélio. Estudos com cinematografia intravaginal realizados pelo casal Master
e Johnson demonstraram o porejamento do plasma em toda a superfície vaginal de
uma mulher medianamente excitada. Quando uma mulher diz que lhe basta ouvir
determinadas palavras, ditas com certa entonação para que fique toda molhada
é porque houve condicionamentos anteriores nos quais estes estímulos foram
seguidos de conseqüências agradáveis, ou reforçadoras, que tornaram esta
resposta vasomotora mais provável. O orgasmo é um, senão o mais, importante
reforçador em ambos os sexos. Experiências anteriores tornam a transudação
vaginal, pelo condicionamento pavloviano, um estímulo sinal indicativo da
iminência de um orgasmo. Condicionamentos operantes podem levar então a reações
de esquiva ou fuga quando esta sinalize uma experiência desagradável. Caso uma
experiência anterior tenha sido reforçadora, o condicionamento operante levará
a comportamentos participativos da relação sexual que culminem na reação
orgásmica. Reações historicamente desprazeirosas, notadamente na primeira
relação sexual, dificultariam a experiência orgásmica. Açodamentos em
experimentar uma primeira relação, por mera imitação ou curiosidade,
podem tornar uma jovem numa futura mulher anorgásmica, que requererá cuidados
especiais.
A busca manipulativa de determinados pontos anatômicos
na parede da vagina, notadamente na manipulação digital por via anterior, que é
a mais cômoda, ao invés do acesso posterior mais eficaz.
é um comportamento operante, que fatalmente tocará os pequenos
lábios e clitóris, ricos em inervação sensitiva e reconhecidamente envolvidos
na obtenção do plateau orgásmico. Repare a artificialidade do posicionamento
digital na figura ao lado, para que o dedo introduzido se mantenha afastado do
clitóris! Ao masturbar-se em decúbito dorsal, mesmo com o braço passando por
baixo da coxa, a mulher fatalmente terá estimulação da glande clitoridiana. A umidificação vaginal, mais ou menos profusa em razão direta da
sensibilidade à histamina, irá ser reconhecida, pela auto-experimentadora, como
um sinal inequívoco da excitação sexual e como prenúncio de uma reação
orgásmica. As mulheres que apresentam tríplice resposta cutânea a estímulos
térmicos ou traumáticos tendem a uma humidificação mais profusa e são mais
condicionáveis ao orgasmo. As atividades de sexo oral ou masturbatórias,
preliminares à introdução peniana, são importantes facilitadores orgásmicos.
Devemos ainda lembrar que a embriologia e a anatomia nos mostram que os corpos
cavernosos do corpo do pênis, no homem, são homólogos dos bulbos cavernosos da mulher, duas volumosas
formações de tecido erétil profundamente situadas no âmago dos grandes lábios.
A outra homologia é entre a glande peniana e a glande do clitóris. A
glande do clitóris, como a do pênis é rica em terminações tactéis
superficiais, de grande sensibilidade. Pressões, de outro corpo ou da mão, sobre
qualquer uma destas formações, aumentam-lhes a
retenção sangüínea, edema intersticial, ereção dos bulbos e constrição do
intróito vaginal, tornando-se facilitadoras do orgasmo. A sabedoria indiana das
posições mais prazeirosas, no Kamasutra, adequa o ato às peculiaridades
anatômicas dos casais. As mulheres baixinhas e
gordinhas estão entre as que, mais frequëntemente relatam dificuldades em
atingir o orgasmo. A humidificação vaginal
por transudação e a humidificação do intróito pelas secreções glandulares,
ainda que possa ser profusa, até 5 ml, carece do movimento propulsivo que recebe o nome
de ejaculação. Ejacular é projetar à distância. Portanto, não existe ejaculação
feminina!
Curiosamente, as sexólogas, que ocupam
as páginas de nossos jornais, divulgam a noção, totalmente equivocada, de que
as mulheres experimentam ejaculação e omitem as homologias entre a ereção
feminina, do tecido erétil dos bulbos cavernosos e do clitóris, com a ereção peniana
do homem. Será outro tabu? Nova face da inveja do pênis?
As funções exercidas pela vagina já são bastante importantes o que torna desnecessário atribuir-lhe, fantasiosamente, outros papeis. Como já dizia um falecido professor de anatomia, a vagina é o órgão mais importante, porque une o útil ao agradável.
É importante definir que o orgasmo feminino pertence à mulher. O máximo que o homem pode fazer para que uma mulher atinja o orgasmo com ele é ser muito carinhoso e, sobretudo, não atrapalhar. Há muitos modos pelos quais um profissional pode educar uma mulher para facilitar seus orgasmos mas não existe um profissional que possa ensinar um homem a provocar orgasmos nas mulheres. Lamento decepcionar os interessados do sexo masculino, mas não tenho essa fórmula mágica. O mais importante é que aquela mulher queira atingir o orgasmo com aquele homem. O orgasmo não nasce nem no clitóris, nem na vagina -- inicia-se na córtex cerebral!
Sinta
aqui a diferença entre o orgasmo masculino e o feminino
Anexamos, com a devida vênia, colaboração
enviada por uma leitora, em 05/09/99, que nos empresta seu depoimento pessoal
em apoio ao que acima foi apresentado e outra, de 22/6/2000, que veio com expressiva
documentação fotográfica... Muitos agradecimentos também à anônima que
enviou a expressiva filmagem de sua atividade masturbatória em 2003.Os
preconceitos vão sendo, pouco a pouco vencidos...
Caro professor,
Gostaria de opinar como leiga, já que de histofisiologia nada entendo.
Me parece equívoco buscar a origem do orgasmo feminino na vagina, já que é no
clitóris que estão localizadas as abundantes terminações nervosas. O que
ocorre, e nisso dou meu testemunho pessoal, é que após adequada e suficiente
estimulação do clitóris, a penetração, com seu movimento de vai e
vêm, aumenta ainda mais o prazer da mulher, de modo ímpar. Nesse
sentido, creio que clitóris e vagina formam um dueto de funcionamento peculiar
e que levam a um orgasmo intenso, mais intenso que o provocado só pela
estimulação clitoridiana. No entanto, se a penetração ocorre sem que o clitóris
tenha sido devidamente e continuamente estimulado, simplesmente não há gozo e
as
sensações oriundas dela são mínimas.
Espero ter contribuído,
MR
Concordo integralmente. Envio foto, tirada pelo meu marido, comprovando que entendo do riscado...Essas meninas pensam que sabem tudo, mas tem muito que aprender...bjs CR
Clique aqui para ver uma apresentação Powerpoint com recentes descobertas sobre a localização do Ponto G
Desafio: Aceitamos o desafio de uma usuária do site e estamos publicando sua desinibida correspondência sobre pedofilia e virgindade, com o risco de escandalizar as mais moralistas, para debate pelas jovens freqüentadoras. Acrescentamos o depoimento da Maria Clara sobre o tema.
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