Na undécima hora, no fim do prazo, o governo deu-se por vencido e, embrulhado na justificativa de que se curva à decisão da Justiça, decidiu conceder reajuste aos servidores civis, da ativa e aposentados, dando por encerrado a injusta discriminação de quatro anos de vencimentos congelados, única exceção entre os assalariados do país.
Retardado ao limite do possível, o anúncio não chega a provocar alívio nas aflições de mais de um milhão de famílias que purgam a lenta, mas inexorável redução do modesto padrão de vida, com perdas acumuladas, na provação de quatro anos a ver navios, da ordem de 50%. O que quer dizer que os vencimentos do funcionário paisano foi sendo corroído pelas beiradas da inflação contida, mas não domada, em praticamente a metade.
A categoria padecente perdeu o direito ao orgulho e não desdenha o gesto de generosidade da mão fechada de governo, forreta com alguns e pródigo com seus cupinchas.
O diabo é que, como demorou demais a curvar o espinhaço no reconhecimento do tratamento cruel aos seus servidores, arriou a trouxa quando já não mais podia carregá-la na cacunda. E não pode esperar a gratidão dos votos perdidos para a reeleição.
Algumas nódoas mancham o que soa como pedido de perdão, balbuciado em tom lamuriento, como sussurro gaguejado, olhos baixos, súplices, mãos suadas. Francamente, não convence depois de tantos anos da aspereza das negativas terminantes dos porta-vozes oficiais, de ministros e burocratas que se dispensavam de apresentar justificativas nos desmentidos secos, como recado malcriado a subalternos.
E não é só. O governo amoleceu o coração depois que chegou ao fim da linha, forçado a cumprir decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) concedendo o reajuste aos 11 funcionários públicos que bateram à sua porta e arrombaram o cadeado da usura discriminatória.
Agora, só agora, tenta-se consertar o estrago no remendo oportunista de desculpas. Esperou a palavra final da Justiça para não ser surpreendido pelo rombo na caixa raspada. Tanto que se preveniu, deixando folga de 8% no Orçamento de 98 para pagar o reajuste dos servidores. Por que não se explicou antes, refrescando a angústia dos condenados a cortar despesas e endividar-se?
Não é caso para soltar foguetes. Basta o suspiro para modesta comemoração. O reajuste deve ficar entre 12% a 13% e não será o mesmo para todos. A poda nos 28,86% do percentual garantido aos 11 abridores da picada fica por conta do desconto dos aumentos concedidos no apagar da lamparina do governo do presidente Itamar Franco. Tal como decidiu o STF, atendendo às alegações do embargo de declaração apresentado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.
Portanto, antes de abrir a garrafa de água mineral para a farra do regozijo, convém aguardar o anúncio oficial do reajuste e conferir a posição de cada um na tabela. Quem recebeu de 28,86% vai ver o aumento por um óculo, e lamba os beiços se não tiver que devolver a diferença...
O acórdão do STF deve ser publicado no Diário Oficial de sexta-feira, 26. Mordido pela urgência em comovedora diligência, o governo apressa os cálculos para rebater a publicação do acórdão com o bimbalhar dos sinos da benevolência. Nada de exagero. Precavido, quer tirar a limpo se o TSE determina que o reajuste é ou não retroativo a 93. Se tiver que coçar o bolso para pagar atrasados é possível que regateie, choramingando abatimento.
Há alguns meses, brincando e falando sério, propus três apostas ao governo: 1 - A paridade de vencimentos entre civis e militares, velha conquista da categoria, seria derrubada no Congresso; 2 - Na marola da queda da equiparação, os militares teriam seus soldos reajustados; 3 - O presidente-candidato à reeleição daria aumento aos civis antes do fim primeiro reinado.
Ganhei todas. A última chega com o gosto azedo de prato requentado. Ainda assim, quero o meu picolé, o meu doce de coco de tabuleiro de baiana e o almoço, sem vinho e sem luxo, pago pelo embaixador Sérgio Amaral. Prometo dividir os prêmios com o barnabé que ganhou a sorte grande e não sabe o que fazer com a fortuna. Afinal, 12%, 13% de reajuste depois de quatro anos de jejum é de dar indigestão.
* Repórter político do JORNAL DO BRASIL
Veja do mesmo autor a Safra da Iniqüidade
RIO,16.11.2001